O GORÓ DO CURUPIRA Por: Altair Santos (Tatá)





Na comunidade do Tira Fogo, no baixo madeira, chegou de mala e cuia o Saudovel, isso mesmo Sau-do-vel, novo morador do lugar, vindo direto do Maranhão e que logo escancarou ao conhecimento popular o seu apelido: Curupira. Misterioso, embora falante, praticamente só dava as caras em público nas noites festivas e nas missas dominicais, bem cedo, isso quando a ressaca lhe permitisse levantar ainda meio lá meio cá, avariado dos sucessivos nocautes etílicos que o faziam tombar e beijar a lona.

O homem logo se fez conhecido, popular até, no local, apesar de ser uma coleção viva de estranheza, a começar pelo seu estrambólico nome de batismo e registro. Saudovel talvez fosse um arremedo ou tradução mal-acabada de Sandoval, grafado de forma aleijada por algum tabelião ou oficial chirrado, quase iletrado ou reduzido da audição, ou as três coisas: bebum, moco e analfa. Por isso a sua preferência pelo pseudônimo.

O Curupira do Tira Fogo, tal qual o da lenda, tinha uma deficiência, seus pés eram curvados para dentro (daí o epíteto) fazendo quase os dois dedões se bicarem. Mesmo assim era ágil e desenvolto na lida do plantio de cana, mandioca, melancia, hortaliças e outras culturas, até brincava de futebol e também era um hábil e performático dançarino e, mais que isso, destacado e inimitável bebedor duns potentes gorós, por ele artesanalmente preparados em rituais ultrassecretos.

Das sessões científicas de preparo e envasamento da abençoada, exalava longe um cheiro refrescante de frutas como maracujá, cupuaçu, cajá e cajarana, abundantes no seu quintal para uso no laboratório caseiro.

Quando dos seus bordejos pela vila, o fazia já de cabeça feita e juízo alterado após haver ingerido a sua bebida misteriosa e suspeita, por ele batizada de Martelada. O apropriado nome do coquetel lombrante talvez fosse atribuído ao imediato e bombástico efeito causado no quengo de quem se atrevesse beber apenas meio caneco, improvisado em lata de leite condensado, contendo uma dose daquele engasga gato que ele oferecia como drink. Tinha uns sujeitos que bebiam do quase veneno e em menos de cinco minutos eram vistos escornados debaixo das árvores em sono perturbado, inquietos, roncando e falando coisas estranhas e indecifráveis, parecendo sonhar em línguas.

Sabedores dos efeitos mirabolantes da exótica birita uns rapazotes do lugar, aspirantes a cachaceiros e alguns adultos já beberrões tarimbados dessa arte, viviam a zanzar sedentos beirando as estacas do quintal de olhos compridos e ouvidos espichados no Curupira aguardando serem chamados para uma fatal degustação, ou seja, tomar uma “martelada.” Minutos depois, sentiam a moringa rodopiar, o chão faltar, a consciência fugir sem rumo e eles saírem flutuando por aí, esvoaçantes nas asas do alucínio, a bordo da nave mocororó, movidos pelo indecifrável ópio dos beiradeiros. Pense na viagem doida!

Assustados, alguns moradores houveram de remar alguns quilômetros para denunciar o químico de improviso, seu alambique doméstico e o produto ao policial duma localidade próxima a quem relataram sobre a tal cachaça como sendo o capiroto engarrafado. Se dizendo medrosos e preocupados em ao menos sentir o cheiro do tal absinto das barrancas e sofrerem os efeitos daquele produto aparentado da la fée verte (a fada verde), como era conhecida a bebida esverdeada da losna com outras ervas, na França e parte da Europa no início do Século XX.
Certa vez nos festejos juninos, uns rapazes da cidade subiram num batelão e lá desembarcou prum rala-bucho daqueles como só visto com autenticidade nas localidades do baixo madeira. Os daqui, por lá, andavam boçais e metidos, todos pancosos, tagarelavam em gírias e transbordavam em gingas sacolejantes e posudos vestidos em escandalosas calças bocas de sino, calçando tamancos ou enormes cavalos de aço e, na cintura, carregavam uns cintos cujas fivelas mais pareciam bandejas de tão grandes que eram.

Como a festa era somente à noite os moços se abancaram e danaram a beber num boteco próximo à residência do Curupira que não demorou a pintar no pedaço, apressado para comprar umas tantas garrafas de cachaça forte para potencializar a receita dos seus coquetéis. Na ocasião o dono do boteco apresentou o Curupira aos forasteiros, dizendo da sua fama e habilidades químico-laboratorais no preparo da afamada manguaça. Os rapazes doidinhos para “fazerem as cabeças” selaram amizades, brindaram festivos e já marcaram uma sessão logo mais à noitinha, ao redor do potente mé. Porém, os visitantes e o Curupira não sabiam que o policial, ali à paisana, mancuricava tudo de perto e armaria um flagrante.

À noite a comunidade inteira festava no terreiro do arraial quando chegaram o Curupira e seus brothers. Logo sentaram em três mesas e danaram a mandar doses de marteladas pra dentro do juízo. Aquela roda virou o atrativo maior da noite e ganhou contornos de drama e expectativa quando o policial acompanhado de três cabôcos contratados ali mesmo praquela missão, deu voz prisão ao grupo.

Um dos garotos, já pra lá de doido e meio, saltou à frente e questionou o meganha, argumentando classicamente que se tratava de inocentes bebidas de frutas e disparou uma sessão de gírias assim: qualé ô da lei, nós tamo aqui numa de barato legal, sem essa de horror, é um lance de paz, apenas jogando idéia de amor, se liga aí que “I have dream, peace and love my brother, god save the queen, I love you man, what a wonderful world...” Sem entender nada o policial asseverou, para com essa porra, chega desse trololó maldito!

Em seguida inquiriu: seu Curupira que bebida é essa, que efeito ela causa nas pessoas? Responda sob pena de ser preso agora mesmo. A música parou, fez-se um breve silêncio e foi aí que o Curupira, o mago do etílico saiu com essa: não adianta eu lhe dizer o efeito porque quando ele ocorre eu já tô dormindo. Mas se quiser saber e tiver coragem prove seu guarda, beba, não faz mal nenhum...

O guarda sizudo e machão inabalável, apreciador duma caninha, serviu meio copo, bebeu, achou docinha, serviu mais uma, bebeu de novo e diagnosticou dizendo ser suave. Da sua autoridade de homem da lei propôs que os seus soldados ad-hoc bebessem da mistura para comprovar o que disse e franqueou a todos que quisessem. Aos poucos, as pessoas se achegavam tímidas e provavam daquele barato e ficavam. Aquilo animou o Curupira ir até sua casa, trazer o seu estoque e oferecer ao povo. Mais tarde aos poucos o povo todo ia caindo a ponto de, ali mesmo, todos dormirem o sono coletivo sob o devastador efeito das marteladas.

De manhãzinha quando o Padre chegou pra rezar a missa deparou com aquela cena de extermínio. Bateu o sino na primeira, na segunda e terceira chamadas sem ninguém acordasse. Daí resolveu celebrara ali mesmo no terreiro onde, talvez, tenha feito a encomenda daquelas almas chirradas.

tatadeportovelho@gmail.com

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