"A CÉU ABERTO": Médicos do Ceará realizam cirurgia em bebê ainda no útero da mãe, caso inédito no estado



Chamada pelos médicos de cirurgia “a céu aberto”, o procedimento feito na Maternidade-Escola retirou o útero da paciente para fora do corpo e operou a coluna do feto

Foi realizada pela primeira vez no Ceará uma cirurgia para correção de uma má-formação congênita de um feto ainda dentro do útero da mãe. O procedimento foi feito no último domingo (26), por uma equipe médica da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC), da Universidade Federal do Ceará (UFC). Até então, a cirurgia é feita tradicionalmente poucos dias depois do nascimento.

Chamada pelos médicos de cirurgia “a céu aberto”, o procedimento é feito colocando-se o útero da paciente para fora e fazendo uma pequena incisão no órgão, por meio da qual operam a coluna do feto. Em seguida, fecham as incisões e o útero é inserido novamente no abdômen da mãe. A gestação segue normalmente até o nascimento do bebê, geralmente prematuro.

“O procedimento melhora o prognóstico dessas crianças no sentido motor, neurológico e no desenvolvimento em toda a sua vida, com menor taxa de hidrocefalia. Já há evidências científicas consistentes de que quando a cirurgia é realizada intra-útero o resultado neurológico é melhor do que a cirurgia pós-natal”, explica o Professor Edson Lucena.



O professor Herlânio Costa ressalta a importância do diagnóstico precoce. Segundo ele, a cirurgia “a céu aberto”, deve ser feita entre a 24ª e a 26ª semanas de gravidez “para que haja tempo de orientação adequada e preparo da paciente e a família possa tomar sua decisão. A mielomeningocele já pode ser suspeitada no ultrassom morfológico de 1º trimestre, entre 11 e 14 semanas de gestação, e confirmada a partir da 15ª semana, em geral, no morfológico de 2º trimestre, de 18 a 24 semanas”, aponta.

A cirurgia foi coordenada pelos professores Edson Lucena e Herlânio Costa, da Faculdade de Medicina da UFC, a cirurgia foi viabilizada com a vinda de quatro médicos de São Paulo: os neurocirurgiões Sérgio Cavalheiro e Italo Suriano e os obstetras fetólogos Antonio Fernandes Moron e Maurício Barbosa. Além deles, participaram também o neurocirurgião pediátrico Eduardo Jucá e a anestesiologista Fernanda Castro e equipe com mais de 20 profissionais.

Mãe veio do interior

A enfermeira Fernanda Oliveira, viajou de Russas, a 150 km de Fortaleza, para buscar o tratamento para a sua filha, Giovana. Ela já é mãe de uma menina de cinco anos que também tem mielomeningocele. As limitações no desenvolvimento da primeira filha foram a principal motivação para que a família buscasse um tratamento precoce para a bebê que está para nascer.



“Busquei informação em todo o País, mas a cirurgia particular era impossível para nós. Foi um especialista de Curitiba quem me indicou o Dr. Herlânio, aqui da MEAC”, contou. A partir da primeira consulta na Maternidade-Escola, a família e o hospital se organizaram rapidamente para a cirurgia. Três dias após o procedimento, Fernanda segue se recuperando muito bem, conseguindo andar, está medicada e sem dor.

“É uma vitória de toda a família. A saúde da Giovana vai ser importante até mesmo para a qualidade de vida da Beatriz, minha outra filha, que demanda muito nossa atenção. Não temos palavras para agradecer a Deus e a todos os profissionais envolvidos”, disse.

Sobre a Mielomeningocele

A mielomeningocele, também conhecida como espinha bífida aberta, é uma malformação congênita da coluna vertebral do bebê em que as meninges, a medula e as raízes nervosas estão expostas. O defeito surge antes da 8ª semana de gestação. Se não corrigido, traz graves sequelas no desenvolvimento neurológico da criança. As causas são multifatoriais, podendo ser genéticas ou ambientais.

Segundo estimativa da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, a cada mil nascimentos, um a dez bebês podem ter essa condição. Por isso, a medicina fetal tem concentrado esforços para tentar corrigir com o máximo de precocidade, evitando danos mais severos. A técnica mais comum é uma neurocirurgia nos primeiros dias após o nascimento. Mas nos últimos anos, a cirurgia no bebê ainda no útero da mãe tem sido a opção mais eficaz para o tratamento.

Balanço positivo

Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, o Dr. Herlânio Costa, Médico Obstetra da MEAC, disse que a escolha da paciente para esta primeira cirurgia se deu a partir de um telefonema que ele recebeu de Curitiba informando que havia uma gestante do Ceará querendo ser operada por lá. “Prontamente ele (médico de Curitiba) me colocou em contato com ela. Após avaliação ultrassonográfica e por ressonância magnética confirmamos os critérios de elegibilidade e agendamos para o melhor período.

A Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC) é um dos poucos hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) a realizar cirurgias desse tipo. A estimativa é que sejam feitas cerca de três a quatro por ano, mas essa demanada deve aumentar. O procedimento ficará acessível a toda a população, segundo o médico.

O procedimento realizado no bebê de Fernanda foi avaliado pelo médico como totalmente positivo. “É uma cirugia de alta complexidade e contamos com uma ampla equipe para o resultado satisfatório. A gestão, especialmente na pessoa do Dr. Carlos Augusto, deu total apoio na condução desse processo. Tornou um sonho realidade. Agora iremos beneficiar muitas outras pacientes. Não precisarão mais se deslocar para outros centros”, concluiu.

iguatu.net

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